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Minha querida Tamy

Tive alguns animais de estimação e certamente amei e senti muito a perda de todos. Mas a poodle Tamy era minha cadelinha especial. Branca, pequena, delicada e amorosa, ela foi minha companheira dos 12 aos 22 anos. Acredito que foi por ela que optei pela medicina veterinária. Foi por Tamy também que escolhi o tema da minha monografia de conclusão de curso: “Como lidar com a morte dos animais de estimação”, em que abordo maneiras do veterinário ajudar o  proprietário no momento da perda. 

Tamy era praticamente minha “sombra”. Vivia atrás de mim! Ficava tão radiante quando eu chegava que, segundo minha irmã Lu, até entortava o corpinho. Pedia e dava carinho, mas também sabia a hora de ficar quietinha para compartilhar meus ocasionais choros de adolescente. Mas nunca saía do meu lado.

Aos sete anos, Tamy começou a apresentar sintomas de doença cardíaca e passou a tomar, diariamente, seus medicamentos enrolados num pedacinho de pão sem nunca recusar. Acho que ela entendia que era preciso e se eu, o alvo de todo o seu amor, estava dando o remédio, ela não poderia fazer a desfeita de recusá-lo. Por três anos seguimos assim até que em meados de 2003, último ano de faculdade, notei que as coisas já não iam tão bem.

Durante a noite ela sentia falta de ar, tossia e, às vezes, não conseguia dormir. Nem eu. Então, juntas, esperávamos a crise passar. Meu professor de Cardiologia Luciano Pereira foi fundamental durante esse período. Ele não apenas cuidava da Tamy, como também me preparava para o que poderia acontecer. Luciano foi e sempre será um exemplo para mim e estou certa de que minha companheirinha não poderia estar em mãos melhores do que as dele.

Os meses passavam e novos sintomas surgiam, além da falta de ar, que se tornava cada vez mais frequente. Certo dia, Luciano me alertou: “Tati, é melhor que a Tamy não viva tanto se for para sofrer.” Ele relatou que alguns pacientes que tinham uma ligação muito especial com seus “donos” às vezes os poupavam do sofrimento e partiam no momento certo, antes que eles tivessem que considerar uma eutanásia. Para isso, eu devia entender e aceitar que não havia mais cura para minha pequenina. Eu sofria todos os dias na expectativa do que poderia acontecer com Tamy.

Certa manhã, fui medicá-la como de costume e a Tamy, pela primeira vez, recusou o remédio. Comecei a chorar e entendi que aquele poderia ser um sinal. Fui para a faculdade, busquei minha mãe na escola onde ela lecionava e, ao chegar em casa, minha irmã Luciane me chamou: “Tati, vá logo ver a Tamy porque ela não está bem!”. Corri para encontrá-la e a peguei no colo. Ela olhou para mim e, em poucos instantes, morreu nos meus braços. Tenho certeza de que ela me esperou chegar. Queria se despedir.

Saí correndo de casa para levá-la a uma clínica veterinária. Precisava que alguém confirmasse o que eu já sabia. Por falta de opção, fui parar num veterinário 24h que desconhecia. Aos prantos, entrei no consultório. O veterinário colocou Tamy na mesa e auscultou. Friamente, disse: “Está morta.” Antes mesmo de eu conseguir olhá-la de novo, o médico já estava chamando outro cliente e não voltou a me dirigir uma só palavra. Saí daquela clínica triste e revoltada. Nunca esqueci da frieza daquele homem, que jamais deveria ter escolhido ser um médico veterinário.

Embora a morte da Tamy tenha me causado uma dor sem fim, trouxe experiências que me tornaram a profissional que decidi ser. Aprendi que quando amamos demais um bicho de estimação, temos que nos esforçar para aceitar que certas doenças são incuráveis e procurar priorizar a qualidade de vida do animal. É preciso rezar ou torcer por sua saúde e não apenas por uma vida duradoura. E aprendi que nunca deveria tratar ninguém da forma que fui tratada por aquele veterinário, mas que deveria seguir sempre o exemplo do meu querido professor Luciano. E assim optei por seguir o caminho da entrega, do envolvimento e da solidariedade.

Continuo me esforçando para lidar melhor com a perda, seja dos meus animais ou dos meus pacientes. Sempre é triste e difícil, às vezes mais do que deveria.  Entretanto, após sete anos de formada tenho certeza que escolhi o caminho certo. E agradeço minha Tamy, meu anjinho da guarda, por ter me proporcionado tanto amor e alegria.

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