Arquivo para categoria Histórias de Veterinária

Um dia triste, outros felizes

Há 4 dias a Tiffany nos deixou. Conheci a “ferinha” no dia 8 de maio. Ela chegou à clínica com aquela carinha de quem pede carinho, mas logo fui avisada por seus “donos” que era melhor ter cuidado com ela. A danadinha era brava mesmo!

Durante a internação ela mordeu cada uma de nós. Meu dedo, a mão da Ju (minha sócia) e a mão da Mari (nossa plantonista). Como somos insistentes e não nos ofendemos com isso, continuamos nos aproximando e interagindo cada vez mais com Tiffany. E em poucos dias nos afeiçoamos a ela. Aquela cadelinha conseguiu nos conquistar!

Tiffany era portadora de uma doença grave, uma anemia crônica, e por isso foi submetida a quatro transfusões de sangue. Tomava uma série de medicamentos, não se alimentava direito e por esses motivos ficava conosco na clínica diariamente. Voltava para casa apenas para passar a noite, já que nossa clínica não funciona como 24 horas. Júlio, Carina e Carla, seus melhores amigos, nunca reclamaram de nada. Sempre foram extremamente carinhosos com a pequena e muito otimistas. E a “garota” reconhecia tudo isso, era evidente.

Na última sexta-feira, dia 1, ela passou mal na madrugada e ficou internada num hospital veterinário. E no domingo, estava trabalhando quando recebi um telefonema do Júlio sobre o falecimento da Tiffany. Não tive tempo para processar a notícia, mas no fundo eu já sabia do risco – o caso dela era realmente muito grave.

Meu plantão de domingo foi corrido, com muitos atendimentos e algumas emergências. Mas voltei a pensar nela quando cheguei em casa. Fiquei triste como sempre, mas não chorei (coisa rara. Minha colega Ju sabe bem disso…). Cheguei até a pensar: ” Acho que estou conseguindo lidar melhor com essas perdas… Que bom!”.

No dia seguinte o Julio e a Carina vieram nos visitar. Se a Tiffany estivesse viva viria nos receber com a cabecinha baixa e o “cotoco” do rabo balançando sem parar. E aí descobri que no dia anterior estava apenas cansada e atarefada demais, por isso não tinha “processado” a perda da Tiffany. Mas ao encontrá-los desabei e continuo angustiada pela perda da pequena.

Quando ainda era estudante, uma das minhas melhores amigas da faculdade trabalhava com proteção animal e freqüentemente nos relatava histórias trágicas e tristes. Ela me dizia que acumulava sofrimento para então sofrer de uma vez, porque a rotina não a deixava parar e ficar deprimida. Parece racional demais, mas não deixa de ser verdade. Aconteceu comigo e sem querer. Chorei pela Tiffany, pela querida Beja e por tantos outros que nos deixaram.

E assim vamos colecionando historias tristes e outras muito felizes. A Tiffany viveu por 10 anos graças ao amor e cuidado dos seus donos. A gatinha Beja teve sempre por perto proprietários dedicados e amorosos, que estiveram com ela até o fim. E mesmo que elas não estejam mais conosco, proporcionaram muitos momentos de alegria.

E a história da Tiffany e da Beja, foram sim histórias muito felizes. E minha maior alegria foi saber que os proprietários da Tiffany querem um novo amigo, um cãozinho de muita sorte que será adotado. E essa será mais uma história de um cãozinho muito, mas muito feliz!

A gatinha Beja

 

 

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Adoção: as responsabilidades de cada um

Luc

Muitas pessoas procuram ONGs para encontrar um novo animal de estimação. Mas antes da adoção é preciso ter em mente que nem todos os abrigos possuem infraestrutura suficiente para cuidar da saúde de todos os animais. Muitos são carentes de recursos básicos, como comida e higiene.

O abrigo da Dona Cecília, que faz parte do projeto Cão sem Fome,  não tem condições financeiras para cuidar adequadamente de todos os cães. Quando comecei a ajuda-los percebi que havia muito a ser feito, como melhorar a higiene e manejo do local, e combater os carrapatos que infectam e matam alguns animais. Isso sem falar na realização de exames e testes sorológicos para garantir a saúde completa de cada um. Mas isso depende de dinheiro e pouco pode ser feito de imediato. Conseguimos vacinar mais de 40 cães – o que já foi uma grande vitória.

Escrevo isso para mostrar que ao adotar um animal nesses locais, a pessoa deve ter plena consciência de que a ONG não tem controle de todos os animais e, por isso, não é responsável pelo que pode acontecer depois de sua saída. Esses projetos tentam melhorar a condição de vida dos animais, garantindo em primeiro lugar a alimentação. Tudo que vier a mais é uma vitória.

Por outro lado, acredito que as ONG de animais devem ser verdadeiras sempre. Elas devem, sim, alertar o futuro tutor sobre as reais possibilidades e necessidades do animal a ser adotado. Como veterinária, tenho obrigação e alerto todos os proprietários de animais recém-adquiridos (sejam adotados ou comprados), que nenhum deles está livre de doenças virais, por melhor estado que aparentem. Alguns vírus ficam incubados e podem se manifestar após alguns dias ou meses. Portanto, avaliações periódicas e exames complementares podem ser necessários em alguns casos.

Já ajudei algumas ONGs e sei que problemas com adoções são frequentes. É de inteira responsabilidade da ONG fornecer todas as informações sobre o animal que está sendo doado, como seu temperamento com pessoas e outros cães, traumas vivenciados, doenças anteriores, tratamentos realizados, data e carteira de vacinação, entre outras informações que possam ser úteis ao tutor. Aos proprietários que já têm outro animal, é imprescindível que saibam se existe algum risco para o contactante.

Vale saber, ao adotar, que cães vacinados têm pouquíssima chance de ser infectados por doenças como a cinomose e parvovirose (doenças virais altamente letais). Já no caso dos felinos, existem doenças graves como a Peritonite infecciosa felina (PIF) que não tem cura e pode acometer gatos em qualquer faixa etária. Não existe vacina e o risco de transmissão é grande entre os felinos.

Mas não se esqueça que os cães latem, podem urinar e defecar fora do lugar, exigem atenção e cuidado, fazem bagunça, ficam doentes e algumas vezes destroem objetos. Os felinos miam, podem arranhar móveis, cortinas e sofás, ficam doentes e precisam do nosso cuidado. Portanto, nenhum dos itens citados acima é motivo de abandono e devolução. Um animal não é objeto e precisa ser cuidado e amado por toda suaa vida. O abandono causa trauma emocional e, para mim, é um ato de crueldade.

Não compre e nem adote um animal por impulso. Se ficar doente, cuide. Quando envelhecer, continue ao seu lado. Eles merecem amor, cuidado e respeito!

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Um pedido de ajuda

Hoje fui atender os animais de um dos abrigos que o Projeto Cão sem Fome ajuda, localizado no Grajaú- zona Sul de SP, depois do autódromo de Interlagos. Dona Cecília é a proprietária da casa e abriga aproximadamente 40 cães e alguns gatos.

A convite de Glaucia, organizadora do projeto, fomos examinar alguns cães doentes e vacinar outros. Eu e minha amiga veterinária Vivian Calderelli passamos algumas horas com os peludos, e embora tenhamos feito alguns atendimentos a sensação ao sair de lá foi que muito pouco fizemos. Ainda há muito a ser feito para melhorar a qualidade de vida daqueles animais.

O que tenho certeza é que não lhes falta amor e proteção. Dona Cecília sabe o que cada um gosta e no meio daquele tumulto perde alguns minutos acariciando a cabecinha de um cão carente.  Ela faz uma pausa para acariciá-lo e fala: “É disso que ele gosta!”. Não tivemos tempo para escutar a história da maioria, ou quem sabe nos protegemos de saber detalhes de uma vida triste, ora de abandono, ora de sofrimento.

A notícia boa é que depois da ajuda do Projeto Cão sem Fome, os 40 cães tem o que comer. Glaucia e toda equipe dedicam parte do seu tempo para arrecadar o mínimo para a sobrevivência daqueles queridos animais. Há aproximadamente 5 meses eles não passam fome, mas ainda precisam de cuidado médico e melhores condições para viver. Passamos algumas horas no abrigo e foi praticamente impossível não ser conquistado por tantas carinhas carentes. Alguns fazem fila para receber um cafuné, porque carinho nunca é demais!

Um dos canis em melhor condição

Alguns problemas vão além do que podemos contribuir, porque para isso precisamos realmente de verba. Embora Dona Cecília tenha um terreno grande, os canis tem piso inacabado, as portas são velhas e improvisadas, não há separação do lugar onde dormem e fazem as necessidades. E o pior de tudo é que a parte dos canis não tem sistema de esgoto. Ou seja, aquela sujeira vai toda para a rua e vários vizinhos já acionaram a prefeitura e o centro de controle de zoonoses.

Parte da frente da casa da Dona Cecília

Dona Cecília tem muito amor e boa vontade, mas não tem a menor condição de manter tantos animais. E esse problema não tem fim, porque é bastante comum pessoas “jogarem” animais pelo muro da casa. Para quem ama tanto e cuida de muitos, Dona Cecília não tem coragem de colocá-los na rua novamente.

Portanto, aos que confiam em mim, tem interesse e condições de ajudar de alguma maneira, qualquer ajuda é bem vinda. Em breve irei ao abrigo com minha irmã arquiteta para estipulamos um orçamento dessa obra, bem como o que é possível ser feito para melhorar e reestruturar o local.

Projeto aceita qualquer tipo de doação: ração, petiscos, medicamentos, xampu, desinfetante, álcool, comedouros e bebedouros, cobertores, coleiras, etc. E lógico, melhor ainda quem tiver interesse em adotar algum dos cães. Atualmente são apenas 3 filhotes (de aproximadamente 60 dias) e os demais todos adultos. A maioria é de pequeno a médio porte, entre jovens e velhinhos. A vantagem em adotar um animal adulto é que a personalidade já está formada, portanto, não há surpresas de temperamento.

Finalizando, quero fazer alguns agradecimentos especiais. Aos colegas Mario e Adriana, da empresa de medicamento Chemitec, agradeço imensamente pela doação de vermífugos, antibióticos e demais produtos que serão de extrema valia para os bichanos. Glaucia, Fernanda e sua solícita mãe, agradeço pela companhia  e por me permitir ajudá-los de alguma maneira. A minha colega e querida amiga Vivian, agradeço pela extrema boa vontade e disposição em me ajudar no dia de hoje.

Certamente meu dia foi muito mais especial!

Saiba como ajudar: http://caosemfome.blogspot.com/p/saiba-como-ajudar.html

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Uma história, quatro finais felizes

A mãe no dia em que foi resgatada

Num final de tarde há seis meses, meu cunhado Dalton me telefonou desesperado por ter encontrado, numa estrada de terra em Ribeirão Pires (Grande São Paulo), uma cadela e seus quatro filhotes, sendo que um deles já estava morto – provavelmente atropelado. Ele ficou de pensar no que fazer, mas depois de poucos minutos me ligou novamente para contar que os “sobreviventes” já estavam em seu carro… Ainda sem destino, porém seguros.

Algumas horas depois ele me buscou em casa. A ideia era levá-los para a clínica veterinária onde trabalho para que eu os examinasse. Ao entrar no carro, a mãe logo apoiou a cabecinha em minha perna e foi assim durante todo o trajeto. Os filhotes dormiam no banco de trás, sem saber para onde o destino os levaria. Na verdade, nós também não sabíamos. Não podemos hospedar animais na clínica e nem teríamos espaço para abrigar, confortavelmente, quatro cães.

Ao chegar lá, eles comeram desesperadamente, beberam toda a água que puderam e espalharam xixi pela sala toda, pois a alegria era tanta que seus rabinhos não paravam de sacudir. Uma mãe judiada amamentava seus três pestinhas cheios de dentes com os olhos fechados de tanto incômodo, mas era boazinha demais para negar alimento a suas crias.

Os filhotes, ainda sem destino

Depois de cuidar dos bichinhos, os fotografei e postei as imagens no Facebook. No mesmo dia, minha querida amiga Rose se interessou  pela única filhote fêmea. E, no dia seguinte, a levou para casa cheirosa e feliz. Foi a primeira comemoração.

Levei a mãe e seus dois machinhos para um hotelzinho, onde ficaram até cada um encontrar o início de uma história muito feliz. Minha maior preocupação era encontrar um lar para a dócil mãe. Para os filhotes, belos e pequeninos, não seria difícil encontrar interessados.

Conforme previsto, consegui doar os dois machinhos. Um cliente muito querido e um amigo da Rose foram conhecer os pequenos e os levaram para suas casas imediatamente. Cada adoção uma alegria, um momento especial!

Para minha surpresa, em poucos dias apareceu uma pessoa interessada na mãe. A jornalista Giovana Sanchez viu a foto da cachorra no perfil do Facebook da minha irmã, que compartilhou as fotos com seus amigos, que compartilharam com mais amigos e assim por diante. Trocamos algumas mensagens e isso me trouxe mais esperança. Estava certa de que, “ao vivo”, aquela cadelinha de olhar cativante e orelhas compridas iria cativá-la em questão de instantes. Esperávamos, então, o grande encontro.

Esperando os melhores amigos que poderiam ganhar!

Após alguns dias, Giovana foi conhecer a cachorra e caiu de amores por ela à primeira vista! Pedi para que ela esperasse eu finalizar o tratamento da pele para que eu pudesse doá-la saudável e com uma aparência melhor. Não deu tempo. Giovana estava tão ansiosa para tê-la em casa que preferiu não esperar. Levou a “Mel” com a pele feia, algumas feridas e umas falhas na pelagem. Ela não se importava. Afinal de contas, o amor é assim. E Giovana cuidou tão bem da “Mel” que ela se transformou numa cachorra linda e com pelo brilhante, mas com a mesma doçura, calma e olhar de gratidão.

Mel, Nina, Luc e Spike tiveram muita sorte. São amados e bem cuidados por pessoas especias que nunca os abandonarão. Sinto orgulho dessa história e agradeço imensamente a cada um: Dalton, Rose, Giovana, Anderson, Oswaldo e Dona Olga. Vocês são os responsáveis por essa história tão feliz!

Leia o outro lado da história, contada pelas queridas Giovana e Rose.

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“E quando existe algo pior do que morrer….”

Milk em junho de 2011, num dia feliz!

Milk, a cachorrinha tão querida do meu tio já não sofre mais. Bichon Frisé, 14 anos, boazinha, educada, carinhosa, gorda e comilona, saia correndo pela casa latindo para brincar e chamar atenção. Quando percebia que não era apenas carinho que eu tinha para dar, mas uma vacina ou coisa e tal, corria para debaixo do armário como se ficasse invisível aos meus olhos. E então eu a encontrava, colocava na mesa, apertava sua barriguinha, auscultava seu coração, ora fazia uma injeção, ora coletava sangue do seu pescocinho. Nenhuma reclamação, nenhum latido, nenhuma tentativa de morder, ela deixava bem quietinha. Depois a Milk se escondia e eu ia embora, e nas próximas visitas ela me recebia sempre com a mesma alegria e nem lembrava que minha presença nem era sempre tão “legal”.

Desde segunda-feira era outra Milk, aquela que conhecia já não existia mais. Encontrei uma Milk magrinha e sem apetite, olhar distante que já nem me enxergava . Seus rins não funcionavam mais, a cabeça sempre baixa, seu andar preguiçoso e quase sofrido, o “xixi” custava a sair… e se abaixar para urinar era muito difícil, ela não tinha força. A boca não comia mais, armazenava apenas feridas, dor e mau cheiro. Era o início de uma dor sem fim. Foram 3 dias de sofrimento, dela, da família e meu. A morte já não era a única preocupação, porque viver para ela era sofrer.  Tentei o possível, esperava pelo impossível. Aquela cachorrinha tão querida e alegre não existia mais.

Quarta-feira dia de finados, meu tio a trouxe no carro para eu levá-la na clínica comigo. Meu tio, na maioria das vezes sério e seguro, mal conseguiu se despedir de mim porque uma ameaça de choro estava para vir. Talvez ele sabia que ela não iria mais voltar, talvez soubesse que ela nem estava mais lá. Fomos eu e ela no carro, tão diferente de todas as outras vezes que a Milk foi “trabalhar comigo”. Ela adorava, ia agitada e ofegante, recepcionava meus pacientes gatos e cachorros. Ficava tão contente entre amigos e nunca “reclamava” de ninguém. Também já me fez companhia em um plantão noturno, ficou “internada” comigo na maior alegria. Como ela gostava de fazer amizade. E dessa vez não foi assim, meu caminho para o trabalho foi triste e solitário… ela não estava lá. O dia foi difícil, vê-la sofrer foi difícil, cuidar dela foi difícil, limpar a boquinha e as feridas da língua doeu em mim também. Olhar para ela foi difícil e decidir foi muito dolorido.

Ela ficou quietinha, prostrada, dormindo por conta das medicações. Após mais um resultado de exame chegava a hora de definir o “melhor” caminho para a Milk. Ela estava comigo na sala, ainda no soro e deitada em sua caminha. Em determinado momento começou a chorar, gemia baixinho e não parou mais. E era essa a hora para decidir, foi o momento que liguei para o meu tio e o escutei chorar como uma criança. Aquela linda cachorrinha branquinha despertou algo do meu tio que nunca vi antes, porque os animais de estimação são assim, deixam aflorar nossos melhores sentimentos… alguns que guardamos muitas vezes só para eles. E o que a Milk queria de mim? Estava decidido, por mim e pelo meu tio que “aquela” era a melhor decisão. Ela não podia mais sofrer, não era justo, ela não merecia!

Sou veterinária, sou proprietária e além de tudo gostava dela como se fosse minha. Desliguei o telefone e estava sozinha, meu tio novamente não conseguiu se despedir. Estava eu, a decisão e parte da Milk. Juro que perguntei a ela: “o que você quer de mim?”; “o que eu faço agora?”. Ela gemia, estava com dor, devia estar cansada de tanta dor. E então eu rezei, a coloquei em minha mesa com a caminha e foi feita a primeira medicação. O choro foi cessando e na segunda medicação ela dormiu, já não sofria mais e de certa forma fiquei um pouco mais calma. Com a terceira medicação seu coração já não batia e com o estetoscópio fui acompanhado os últimos batimentos de uma vida cheia de alegria.

Hoje ela não sofre mais, e pela minha crença a Milk existe em algum “outro lugar” muito mais feliz. Eu ainda sofro das lembranças e por ter compartilhado todo o sofrimento dos últimos dias. E foi a “boa morte”, a última coisa que pude proporcionar a ela.

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