Arquivo para categoria Histórias de Veterinária

Uma nova etapa com o Manolo – o Alzheimer

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Manolinho está com 13 anos, caminhando para os 14 em dezembro, e há quase 5 anos tem diabetes. A diabetes é uma das doenças que gera mais estresse oxidativo, ou seja, o envelhecimento das células do organismo. Com isso, o paciente fica mais predisposto à doenças degenerativas.

Algo muito comum em cães diabéticos é a perda da visão. Sabemos que o risco de cegueira em pacientes diabéticos é altíssimo logo no primeiro ano da doença. Felizmente, no Manolinho a cegueira demorou a chegar. Só no início do ano passado percebi que ele apresentava dificuldade em enxergar de perto, mas de longe a visão ainda era boa. Conseguia andar em casa com facilidade, mas já manifestava desconforto ao ficar num ambiente desconhecido.

De repente, começou a latir na madrugada. Inicialmente pensei que era apenas para chamar atenção, pedir comida, ou qualquer outra coisa. Sou veterinária mas com os meus cães é diferente. O raciocínio, muitas vezes, não é tão lógico, pois o emocional atrapalha. Dias depois pensei que além da diabetes e do probleminha crônico de pele, a dermatite atópica, Manolo poderia estar com disfunção cognitiva.

Essa síndrome acomete cães e gatos de idade avançada, sendo um processo degenerativo e progressivo. O que ocorre é a “morte” das células do sistema nervoso, causando mudanças comportamentais, que inicialmente podem ser imperceptíveis, mas com o avanço da doença, se tornam muito evidentes.

Lembrando que a diabetes é uma doença que “envelhece” o organismo, acredito que tenha colaborado muito para a evolução dessa doença no meu Manolo.

A disfunção cognitiva pode se manifestar de muitas maneiras e, às vezes de maneira silenciosa. Por essas e outras razões, eu e a Ju, minha sócia, focamos muito na medicina preventiva em nossos pacientes. Os sinais da disfunção cognitiva podem ser olhar fixo do paciente para o horizonte, encostar a cabeça na parede, dificuldade para sair de algum lugar da casa, ficar menos responsivo a estímulos (Ex: demorar a perceber quando chegamos em casa e diminuir as brincadeiras). A evolução da doença pode trazer sintomas como no Alzheimer, quando o paciente já não reconhece mais as pessoas da casa, urina e defeca em locais inapropriados e não responde a comandos.

Inicialmente foram os latidos na madrugada, com o tempo notamos a visão ainda mais prejudicada, problemas com audição e desorientação. Encontrávamos o Manolo em locais que ele não costuma ficar, às vezes, com a cabeça encostada na parede, mas ainda assim interagia conosco. As medicações ajudaram muito e os latidos cessaram rapidamente. Ele conseguia dormir melhor e respondeu bem por um tempo. Entretanto, a doença foi evoluindo e hoje convivemos com um outro Manolo.

Há alguns meses ele não interage mais conosco. Faz xixi em locais que antes não fazia, nunca mais abanou o rabo, nem demonstrou alegria. Antes gostava de brincar com a Amora, hoje em dia mal percebe quando ela está na casa dos meus pais, onde ele mora. Pela falta da visão, não passeia como antes. Fica inseguro e gosta sempre de andar encostado nos portões das casas ou nos muros. Quando vou à casa dos meus pais, praticamente todos os dias e às vezes mais de uma vez no mesmo dia, ele ainda percebe que estou lá. Fica esperando na porta porque sabe que o levo para passear. Chega a raspar a porta para me chamar. É essa a interação que temos e a certeza de que ele ainda é ligado a mim.

O que não muda é o apetite e a vontade de passear. Ele está sempre faminto e ainda apronta muito. Rouba comida e não nega nada – chegou a roubar e comer num mesmo dia, uma caixa de quibe e uma de hambúrguer congelado. Comeu tudo e não passou mal! Lógico que a glicemia foi “parar nas alturas” e eu, mais uma vez, quase enlouqueci. Mas, como um bom Beagle, “estômago de avestruz”, Manolo tirou de letra.

Estamos numa fase difícil, mas ainda assim de aprendizado. Ganhei o Manolo no ano em que me formei e sempre digo que ele faz parte da minha escola da vida. Nem sei mensurar sua importância em minha vida, tudo o que me ensinou – não apenas com os problemas de saúde, mas em saber lidar com tantas situações e compreender sentimentos que antes não entendia. Sinto que estamos nos despedindo e por mais triste que seja, tenho aceitado que seja dessa forma. Entretanto, enquanto ele tiver o mínimo de qualidade de vida e estiver ligado a mim, vamos seguindo.

Termino esse post agradecendo a ajuda imprescindível das minhas irmãs e dos meus amigos do Invet, que o acolheu por tantas vezes que precisamos. Mesmo o Manolo roubando os “lanchinhos” de todos os veterinários que já passaram por lá, ainda assim é recebido com muito amor. E eu só tenho a agradecer.

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A vida (feliz) de um paciente com câncer

Esse breve relato é sobre a vida de um paciente com câncer. E já inicio esse post dizendo que não foi a tristeza que me inspirou a escrever. Foi a alegria.


Hoje não quero falar de tratamento e prognóstico. Quero falar de vida. Coco, um pequeno maltês que veio ainda filhote da Espanha com minha prima Roberta, atualmente tem 8 anos e em setembro de 2015, passou por uma amputação de um dedinho da pata dianteira, devido um tumor maligno. Fez quimioterapia e em janeiro foi submetido a mais uma cirurgia devido um gânglio aumentado. Em abril desse ano, infelizmente, o câncer voltou. No mesmo membro operado e dessa vez ainda maior. Foi indicado amputação alta do membro (desde o cotovelo) como tentativa de evitar o crescimento rápido desse tumor.

Assim como ela, também tive dúvida do que fazer. Existem casos de câncer que causam muita dor ao paciente, fazendo com que o mesmo, muitas vezes, inutilize o membro acometido. Há casos de tumor ósseo, por exemplo, que o animal sente tanta dor no membro que já não apoia. E casos assim nos encorajam a encarar a amputação como uma maneira de cessar a dor e proporcionar mais qualidade de vida ao paciente. Mas não é esse o caso do Cocô.

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A dificuldade da minha prima em lidar com a possível amputação, era ver o Coco fazendo, diariamente, suas atividade como se nada o tivesse incomodando. Por outro lado, acompanhávamos esse tumor crescendo a cada dia. Conversei com inúmeros colegas e expus a minha prima que estava envolvida demais para saber o que fazer.

Decidi então acompanha-la à oncologista para tentar ajuda-la decidir. A indicação foi amputação associada a uma medicação que consegue, muitas vezes, inibir o crescimento desse tipo de tumor e até mesmo fazer com que regrida. A outra opção seria não operar, correndo todos os riscos de não retirar um câncer, e iniciar a medicação apenas.

A Roberta optou por não operar e assumir o risco que essa decisão implica. Essa escolha foi baseada em proporcionar qualidade de vida, independente do tempo que ele tenha. O Coco não sofre. A Roberta sofre por ele.

Essa decisão foi tomada há pouco mais de um mês e há duas semanas o encontrei novamente. Dessa vez, o encontrei na praia e com o tumor bem menor. Sabemos que o tumor está ali. Sabemos também que pode voltar a crescer e até mesmo se espalhar. Felizmente o Coco tem o acompanhamento da oncologista Karine Germano, que soube conduzir tudo da melhor maneira possível. Expondo todas as possibilidades e também aceitando e compreendendo a decisão da Roberta.

O Coco é um cachorrinho de sorte, ele viaja, anda na mochilinha de bicicleta, vai para o trabalho com a Rô e adora pisar na areia. Ele dança com as duas patinhas de trás e nunca deixou de ser um cachorrinho feliz.


No dia que passamos juntos na praia ele fez tudo isso. Tomou sol, cavou e correu na areia. E então tive a certeza que independentemente do que aconteça daqui pra frente, a decisão da minha prima já valeu à pena. Vê-lo feliz me inspirou a escrever esse breve relato. E afirmar a mim mesmo, que o que vale mesmo à pena é viver a vida feliz. Que seja por poucos ou por muitos anos. Ser feliz é o que importa. E o Coco segue vivendo muito feliz.

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Transformando vidas

Por meio desse lindo relato, minha parceira de profissão Ju Didiano, foi premiada com uma viagem para Cartagena – Colômbia, onde acontecerá o 41° WSAVA, Congresso de Medicina Veterinária.
Ju, muito orgulho e admiração por você.  Histórias como essas são os verdadeiros presentes da vida e ser sorteada foi um reconhecimento da sua dedicação e amor. Parabéns, Ju ❤

Ju_Jully

“No dia 20/03/13 por volta das 19:30, já havia encerrado o atendimento da clínica quando nossa recepcionista me chamou dizendo que havia chegado uma emergência: uma cachorrinha atropelada.
Imediatamente pedi para o proprietário entrar na sala de atendimento para que eu pudesse examiná-la.
Ao começar o atendimento emergencial pude ver uma grande e dolorosa fratura exposta em membro anterior esquerdo. Podia sentir sua dor naquele momento. Imediatamente apliquei medicações para controle da dor.
Após medicá-la conversei com o proprietário que teríamos que submetê-la a uma anestesia geral para redução da fratura, assepsia da ferida e imobilização do membro.
Fiquei com a pequena Jully em nosso centro cirúrgico por longas 2 horas, reconstruindo cada pedacinho de seu membro. A lesão foi extensa, com ruptura de músculos, tendões e fratura completa de rádio e ulna.

 

Após finalização do procedimento, a pequena Jully foi liberada, com a fratura estabilizada, medicada e com as devidas medicações prescritas e doadas por nós, pois o proprietário apresentava restrições financeiras.
Foi solicitado que o proprietário fizesse uma radiografia do membro no dia seguinte, e retornasse em nossa clínica pra reavaliação.
Para nossa surpresa, o proprietário não voltou no dia seguinte, voltou somente 2 dias depois, com a radiografia e com a Jully com o seu membro extremamente edemaciado. O proprietário chegou em nossa clínica reclamando da cachorra, que tinha que trabalhar, que não tinha tempo para cuidar e administrar os medicamentos prescritos à Jully. Fiquei muito triste, decepcionada e brava por todo discurso do proprietário.
Deixei o proprietário desabafar tudo que precisava, fiz as medicações que a Jully precisava receber, examinei cautelosamente as radiografias, e inesperadamente, fiz uma proposta ao proprietário: que doasse a Jully para mim, eu iria cuidar da pequena, e assim que estivesse recuperada, iria encontrar uma nova família para ela. Ele nem titubeou, respondeu prontamente que aceitava, e que mais tarde nos traria as medicações que ela estava tomando. Fiquei triste por uma lado: ela havia sido abandonada pelo seu dono, mas feliz por outro: teria perspectiva de encontrar uma família digna de sua companhia e carinho.
A Jully ficou em nossa clínica por cerca de 2 meses, recebendo todo tratamento, curativos e cuidados necessários para sua recuperação. Durante este período muitos clientes a viam circulando pela clínica, mas uma pessoa em especial, a querida cliente Jussara, proprietária de nosso paciente Kiko, já estava cultivando esta pequena semente de futura dona. Um dia me perguntou se a Jully seria doada, que ela estaria interessada em adotá-la, para fazer companhia à sua mãe, uma senhora idosa que morava sozinha. Achei perfeito esta possibilidade de adoção!!!
Nos comprometemos a doá-la castrada e vacinada. E assim, após consolidação da fratura, castração e vacinação a pequena Jully encontrou sua nova família. Foi emocionante saber que existem muitas pessoas dispostas a doar seu carinho e amor a um animal abandonado.
Anualmente a Jully nos visita para as vacinas, e em todas as vezes, ela sempre vem correndo para nossa sala, quando nos vê pula, pula, pula muito, como se fizesse 10 anos que não nos víssemos.
Assim termina nossa história de transformação de vida: uma cachorrinha atropelada e abandonada, mas com nossa ajuda, conseguiu ficar com o membro completamente recuperado, sem sequelas, e com uma família nova.”

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A certeza de que nada é por acaso

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Milly

Não acredito em acaso e algo muito especial aconteceu para comprovar que tudo tem um propósito.

Em 2 de janeiro, após um exaustivo sábado de plantão, descobri que minha tão desejada folga no dia seguinte não aconteceria. Devido uma pequena confusão de datas minha plantonista não havia se programado para ir. Como estava muito cansada fiquei chateada por ter que trabalhar. Um tempo depois ela disse que poderia ir, mas eu já havia me programado mentalmente para o plantão. Pensei que teria uma razão para eu ir trabalhar.

Entre alguns pacientes, atendi Milly. A pequena Poodle de 17 anos chegou no colo de seu tutor. Fiz o pronto atendimento e alguns procedimentos e devido à gravidade do caso, a encaminhei a para internação. O proprietário da Milly demonstrou confiança imediata, não questionou nada que fiz e sugeri. Demonstrou, o tempo todo, que sua única preocupação era o bem estar da Milly. Ao final da consulta, agradeceu e disse: “Que bom que você estava aqui.” Embora não tenha proporcionado o conforto imediato da pequena, ele reconheceu que fiz tudo o que estava a meu alcance com amor. E essa é uma das maiores recompensas. O reconhecimento do nosso trabalho não só pelo resultado, mas por nossa dedicação. Então contei a ele que na verdade não deveria estar de plantão, mas descobri que pela Milly eu deveria, sim, estar lá.

Após um dia de internação eles retornaram à clínica. Quarta-feira, 6 de janeiro. Embora o problema que levou Milly até minha clínica tivesse se resolvido, muitas outras coisas impediam que seu corpinho de 17 anos exercessem suas funções normais. Muito otimista que sou, mas também realista, disse que não esperava uma grande melhora e combinamos de nos ver em cinco dias. Caso a pequena demonstrasse sofrimento e/ou piora, que a trouxesse antes.

Sexta-feira, 8 de janeiro, eles retornaram. Antes da data programada. Mau sinal. Esse foi um entre outros momentos difíceis da minha profissão. Decidir, junto aos seus tutores, o que seria melhor para Milly. Nunca é fácil. E, embora não tenha obrigação de fazer algo que realmente me machuca, meu objetivo é sempre proporcionar conforto e bem estar aos animais que passam por minhas mãos. E se o melhor que posso proporcionar é a boa morte, não posso fugir.

Quando há dúvida costumo elaborar perguntas a mim mesmo e aos proprietários para, juntos, conseguirmos decidir. Milly já não interagia com as pessoas da casa de nenhuma maneira, não andava, não se alimentava, apresentava dor e começou a vocalizar isso nos últimos dias. Infelizmente não tive a chance de conhecer a Milly de verdade, pois desde que a conheci apenas uma parte dela estava presente. E mesmo num momento tão triste, senti muita gratidão pelos tutores depositarem tanta confiança em meu trabalho. Antes de sair o proprietário me agradeceu com muito carinho.

A Milly partiu em paz e amparada com muito amor. Essa eutanásia foi um ato de coragem e amor por parte dos proprietários. Nenhum animal merece sofrer. Eles são bons demais. Merecem amor e não dor.

E essa história não terminou.

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Jamille

Na semana seguinte fui atender minha paciente de acupuntura há um ano, a Jamille. Minha querida cliente Tati que a indicou e tenho um carinho enorme por toda a família Sakumoto. Durante a sessão o Thiago, seu tutor, disse que estavam muito tristes porque na semana anterior a mãe da Jamille tinha falecido. Depois de mencionar a idade e nome, com muita surpresa e emoção descobri que a pequena Milly era a mãe da minha amada Jamille!

Encarei isso como uma benção. Conhecer os tutores da Milly foi um presente. Num momento de perda e dor profunda de uma família que conviveu 17 anos com um ser tão amado, houve espaço para demonstrarem carinho e gratidão.

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Jamille

Muitas pessoas questionam a nós, veterinários, como conseguimos lidar com a morte, com o sofrimento e ter coragem de fazer uma eutanásia. Digo com absoluta certeza que é o amor que nos move. O amor pelos animais, os rabinhos abanando de alegria, as lambidas de carinho e a felicidade dos nossos amigos clientes quando conseguimos melhorar um pouquinho que seja a vida de seus melhores amigos. É o amor que nos dá coragem de enfrentar nossos medos. É o amor que me possibilita, todos os dias, lidar com situações que nem em sonho achava que conseguiria.

E além de amor de sobra, o que sinto é gratidão. Obrigada Milly, Maria Helena, Ervin e família. Obrigada Dani, Thiago e Jamille. Obrigada Tatti, Nino querido e Chico. Obrigada Cris, Vivi, Jully, Tommy e Emy. A família de vocês só me deu amor.

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Sobre as relações humanas na clínica de pequenos animais

 

Desde quando optei pela Medicina Veterinária sabia que teria dificuldades para lidar com a morte e com o sofrimento. Cheguei até a pensar em desistir no quarto ano de faculdade, quando iniciaram as aulas de técnica cirúrgica. Nunca aceitei que, para o nosso aprendizado, alguns animais eram destinados à eutanásia. Para mim, todo e qualquer animal é realmente um ser especial e com direito à vida. Aquilo de certa forma me feria. Mas segui em frente.

Devido a preocupação e importância que sempre tive com o relacionamento que desenvolvemos com nossos animais e pacientes, dediquei meu trabalho de conclusão de curso, em novembro de 2003, para esse assunto: a morte dos animais de companhia na clínica de pequenos animais. Não aprendemos na faculdade a lidar com as emoções humanas e com as nossas emoções. No decorrer da profissão passamos por muitas situações e momentos difíceis. Lidamos com a vida, com o amor dos donos por seus cães, e um dia eles se vão – sejam novos ou velhinhos. Na rotina da clínica muitas vezes não temos tempo de superar cada perda, cada história, cada final triste. E poder falar sobre isso acredito que seja uma maneira de exteriorizar o que me angustia.

Nesse últimos meses tivemos muitas perdas em nossa clínica – todos pacientes idosos e com doenças crônicas. Nessa fase final, acabamos nos aproximando mais de nossos clientes e pacientes, estreitamos laços de amizade, carinho e solidariedade. Lidar com a morte não é nada fácil. Lembro que no primeiro post desse blog falava justamente da dificuldade em lidar com o sofrimento e com a dor nessa fase final e, principalmente, saber se chegou o momento de decidir pela eutanásia. Tenho alguns critérios de avaliação que compartilho com o proprietário para ajudar na decisão. Mas cada caso tem suas particularidades e deve ser analisado de maneira individual. A eutanásia por conveniência é desencorajada e o bem estar do animal é colocado sempre como prioridade.

Há quem diga que por amar tanto os animais nunca faria veterinária. Muito se engana quem pensa que amamos menos, que sentimos menos e que por sermos veterinários nos acostumamos com as perdas. Apenas aprendemos a lidar com tudo isso, para continuarmos a trabalhar com o que mais amamos: os animais.

Devido a licença maternidade da minha sócia e outros contratempos  (incluindo minha dedicação ao meu Manolinho que, atualmente, está muito bem) fiquei muito tempo sem escrever. Há tempos andava angustiada e acredito que foi um acúmulo de emoções. Aquelas emoções diárias que vão se juntando a cada dia de trabalho. Uma vez uma colega de faculdade disse que não tinha tempo para sofrer por cada animal que partia, então ela acumulava essa tristeza e sofria de uma vez. Talvez seja mais ou menos assim, nossa vida sempre corrida não permite que a gente pare para lidar e superar cada perda. E dessa vez acumulei todas elas dentro de mim. E ainda me sinto triste pelas vidinhas interrompidas nos últimos meses.

Gordo - o beagle da Katia e do Claudio

Gordo – o beagle da Katia e do Claudio

Porém, sou muito grata por ter compartilhado, junto com cada amigo proprietário, tantas histórias lindas de dedicação e amor incondicional. Dentro das possibilidades e condições financeiras e emocionais de cada um, tenho orgulho em dizer que todos os nossos clientes fizeram o melhor para o seu animal. Nossos pacientes tiveram todo o amor, cuidado e dedicação que mereciam graças a tutores realmente excepcionais. E partiram deixando saudades e lindas histórias de um amor sem fim. Agradeço pela confiança e carinho, e principalmente por cuidar tão bem do seu melhor amigo – Gordo, Beagle, 12 anos da Katia, Claudio e Mark; Princesa, SRD, 16 anos da Marizete; Atena, Labrador, 16 anos do Sr. Manuel; Suzi, Poodle, 13 anos da Maria Cristina, Zahra, Beagle, 11 anos da Eunice; Dindinha, maltês, 11 anos da Maria Edna; Mel, Persa, 5 anos da Michelle e Marrie, SRD, 14 anos da Mara e Renato. Obrigada por confiarem seus melhores amigos aos nossos cuidados. Foi uma honra poder cuidar de cada um.

 

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As boas novas

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Há tempos não passo por aqui e algumas pessoas me escreveram pedindo notícias do meu Manolinho. Isso me deixa muito feliz e me sinto na obrigação de contar para vocês como estamos. 2013 não foi um ano fácil, mas não diria de forma alguma que foi um ano ruim. Meu pai sofreu um acidente de carro em dezembro de 2012 e como consequência teve lesão medular, ficou uma semana na UTI e um mês internado. Eu e minha família tivemos que nos adaptar a uma nova rotina cheia de cuidados, preocupação, muita gente em casa e muitas noites sem dormir. Meu pai é um guerreiro e com toda sua dedicação e força de vontade segue se recuperando muito bem.

Em fevereiro diagnostiquei meu Manolo com diabetes e os cuidados foram triplicados. Desde então, passo algumas horas na cozinha preparando sua alimentação e tantas outras estudando maneiras de mantê-lo sempre com saúde. Sempre dei importância para a alimentação e o Manolo me tornou adepta e fã da comida caseira também para os cães. Fiz alguns cursos sobre alimentação e medicina preventiva e enriqueci meu conhecimento graças ao meu ex gordinho.

No início do tratamento o peso do Manolo era 14,6kg e administrava 7 unidades de insulina a cada 12 horas. Hoje, ele pesa aproximadamente 11,6kg e usa 1,5 unidade de insulina a cada 12 horas. Ele come comida caseira 3 vezes ao dia e a rotina dele é mais ou menos dessa forma:

8h: 1/4 refeição diária + 1,5 unidade de insulina e em seguida um Pet Palito Zero ou um pedaço de maçã

12h: 1/4 refeição diária

Tarde: um palito/beiju (para roer)

20h: 1/2 refeição + 1,5 unidade de insulina + 1 castanha do Pará

Sei que muitos colegas não indicam petiscos e frutas para cães diabéticos, mas como sou veterinária e proprietária muito zelosa controlo sempre a glicemia dele. Só por isso “saio um pouco da linha”. É importante dizer que todas as vezes que tento acrescentar algo diferente na dieta controlo a glicemia com maior frequência.

Desde o ano passado ele já passou por dois procedimentos cirúrgicos simples com anestesia geral e não teve problema algum. Felizmente também não teve alteração na visão, o que me deixa extremamente feliz! Entretanto, continua “roubando” comida e tirando o meu sossego. Mas quando ele está bem me devolve o sossego e enche meu coração de alegria.

A última novidade é que no final do ano o Manolo e a Lolita ganharam uma irmãzinha nova – a Amora. Adotei a pequena em novembro de 2013 quando ainda tinha pouquíssima chance de sobrevida. Ela ficou internada por quase duas semanas no INVET e graças aos meus colegas Juliana e Danilo se recuperou bravamente de um quadro gravíssimo de insuficiência renal aguda. Eu acreditei nela e todos os dias ela me mostra o quanto valeu à pena. O Manolo nem liga para a Amora e continua vivendo num mundinho só dele, mas com a Lola (e com meu sobrinho Pedro) ela brinca o dia todo.

A Amora veio num momento em que realmente não precisava (e nem gostaria) de cuidar de mais ninguém. Tenho mais sujeira para limpar, mais gastos, mais cuidados, mais comida para fazer e mais preocupação. Em contrapartida tenho mais amor, mais orgulho, mais satisfação, mais emoção e mais alegria nos meus dias. A Amora se tornou meu “pequeno milagre”. Por tudo isso posso dizer que 2013 foi, sim, um ano muito especial. Tive amor de sobra, pessoas especiais ao meu lado e muitos motivos para comemorar!

Amora ainda internada, em novembro de 2013

Amora ainda internada – novembro de 2013


Amora - janeiro de 2014

Amora – janeiro de 2014

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O ônus e o bônus de ser uma proprietária veterinária

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Nesse mês completam 7 meses que meu Manolo, um Beagle atópico de 9 anos, foi diagnosticado com diabetes. Para quem não sabe, atopia é um tipo de alergia muito comum em cães e não tem cura, apenas controle. Um cão atópico pode ter alergia a uma série de coisas – poeira, produtos de limpeza, xampus, alguns alimentos, pulgas, etc. Além disso, cães atópicos tem infecções de pele secundárias à alergia e muita coceira. 

Quando diagnostiquei meu pequeno com diabetes minha maior preocupação, além das injeções diárias e o pavor que ele sempre teve de agulhas, era como conseguiria controlar a alergia sem o corticóide. A cortisona é um hormônio que nosso próprio organismo produz.  Tem ótima resposta para o prurido, mas deve ser usado com cautela pelos inúmeros efeitos colaterais, sendo contra indicado para pacientes diabéticos por ser hiperglicemiante.

Um mês antes do diagnóstico iniciei um novo medicamento, um modulador do sistema imunológico chamado ciclosporina. Um dos efeitos colaterais, descritos como raríssimos na própria bula do medicamento é o aumento da glicemia. Como a mãe do Manolo era diabética, provavelmente o medicamento antecipou o diagnóstico. Mesmo assim, segui com a medicação pois a diabetes já era um caminho sem volta. 

Conforme relatei no post anterior do Manolo, optei pela dieta caseira por dois motivos – para conseguir fazê-lo comer nos horários certos e para meu gordinho perder peso. Há 7 meses cozinho para ele e certamente ele come melhor do que eu. Posso deixar de fazer a minha refeição, mas nunca a dele. O Manolo ama a comida e felizmente é meu melhor paciente diabético. As glicemias são excelentes e as poucas vezes que ele me deu susto foram por culpa da arte de “roubar comida” e comer o que não deve. 

A sorte dele é que eu consigo controlar a glicemia e monitorá-lo da melhor maneira. Com isso, consigo dar alguns petiscos fora de hora. Toda tarde dou um vergalho, ou 1 Pet Palito 0 (da Organnact), ou 1 Pró Palito (da Vetnil). Após o café ou jantar dou uma frutinha após a insulina como recompensa. É importante dizer que abro essas exceções pois tenho como controlar a glicemia dele diariamente e felizmente ele é muito compensado. A glicemia do Manolo em jejum é aproximadamente 90mg/dl e no pico não passa de 180mg/dl. Pacientes diabéticos não devem comer fora do horário e a quantidade de alimento deve ser bem certinha!

Confesso que durante esse tempo tive momentos de desespero nas crises alérgicas. Quando parei de administrar a ciclosporina ele piorou muito e se coçava demais. Acordei inúmeras noites com ele chorando de tanto se coçar, e de tanta coceira se machucava. Muitas vezes rezei e pedi para que se ele fosse viver assim, que não precisava ser por tanto tempo. Por amar tanto meu Manolinho nunca suportei vê-lo sofrendo. Ele passava dias com o colar protetor e sempre arrumava um jeito de se coçar, tremia e chorava de tanta coceira. Mesmo com receio de alterar a glicemia retomei a ciclosporina e há quase 3 meses ele toma diariamente. Felizmente meu amorzinho está muito bem.

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Há 7 meses organizo minha rotina em função dos horários dele. Acordo cedo todos os dias e me programo para estar em casa aproximadamente às 20h, que é o horário da janta. Se durmo no meu namorado volto cedinho para casa para dar o café da manhã e insulina no Manolo, se viajo tenho que programar a rotina e preparar um monte de marmitas com antecedência. Meu Manolo me enche de preocupação, me limita alguns horários, me faz perder horas na cozinha e outras horas de sono, mas faz tudo isso valer a pena!

Sou cada dia mais apaixonada por ele e esse amor é incondicional. Amo chegar em casa e vê-lo abanando o rabinho só para mim, amo o jeitinho que ele dorme e a alegria na hora do passeio e nas refeições. Meu Manolo me tornou uma veterinária melhor. E hoje, no dia do veterinário que seria meu, agradeço meu amigo por todos esses anos de aprendizado. Manolinho, se for para viver bem e feliz, quero você perto de mim por uma eternidade…

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