Arquivo de 5 novembro, 2011

“E quando existe algo pior do que morrer….”

Milk em junho de 2011, num dia feliz!

Milk, a cachorrinha tão querida do meu tio já não sofre mais. Bichon Frisé, 14 anos, boazinha, educada, carinhosa, gorda e comilona, saia correndo pela casa latindo para brincar e chamar atenção. Quando percebia que não era apenas carinho que eu tinha para dar, mas uma vacina ou coisa e tal, corria para debaixo do armário como se ficasse invisível aos meus olhos. E então eu a encontrava, colocava na mesa, apertava sua barriguinha, auscultava seu coração, ora fazia uma injeção, ora coletava sangue do seu pescocinho. Nenhuma reclamação, nenhum latido, nenhuma tentativa de morder, ela deixava bem quietinha. Depois a Milk se escondia e eu ia embora, e nas próximas visitas ela me recebia sempre com a mesma alegria e nem lembrava que minha presença nem era sempre tão “legal”.

Desde segunda-feira era outra Milk, aquela que conhecia já não existia mais. Encontrei uma Milk magrinha e sem apetite, olhar distante que já nem me enxergava . Seus rins não funcionavam mais, a cabeça sempre baixa, seu andar preguiçoso e quase sofrido, o “xixi” custava a sair… e se abaixar para urinar era muito difícil, ela não tinha força. A boca não comia mais, armazenava apenas feridas, dor e mau cheiro. Era o início de uma dor sem fim. Foram 3 dias de sofrimento, dela, da família e meu. A morte já não era a única preocupação, porque viver para ela era sofrer.  Tentei o possível, esperava pelo impossível. Aquela cachorrinha tão querida e alegre não existia mais.

Quarta-feira dia de finados, meu tio a trouxe no carro para eu levá-la na clínica comigo. Meu tio, na maioria das vezes sério e seguro, mal conseguiu se despedir de mim porque uma ameaça de choro estava para vir. Talvez ele sabia que ela não iria mais voltar, talvez soubesse que ela nem estava mais lá. Fomos eu e ela no carro, tão diferente de todas as outras vezes que a Milk foi “trabalhar comigo”. Ela adorava, ia agitada e ofegante, recepcionava meus pacientes gatos e cachorros. Ficava tão contente entre amigos e nunca “reclamava” de ninguém. Também já me fez companhia em um plantão noturno, ficou “internada” comigo na maior alegria. Como ela gostava de fazer amizade. E dessa vez não foi assim, meu caminho para o trabalho foi triste e solitário… ela não estava lá. O dia foi difícil, vê-la sofrer foi difícil, cuidar dela foi difícil, limpar a boquinha e as feridas da língua doeu em mim também. Olhar para ela foi difícil e decidir foi muito dolorido.

Ela ficou quietinha, prostrada, dormindo por conta das medicações. Após mais um resultado de exame chegava a hora de definir o “melhor” caminho para a Milk. Ela estava comigo na sala, ainda no soro e deitada em sua caminha. Em determinado momento começou a chorar, gemia baixinho e não parou mais. E era essa a hora para decidir, foi o momento que liguei para o meu tio e o escutei chorar como uma criança. Aquela linda cachorrinha branquinha despertou algo do meu tio que nunca vi antes, porque os animais de estimação são assim, deixam aflorar nossos melhores sentimentos… alguns que guardamos muitas vezes só para eles. E o que a Milk queria de mim? Estava decidido, por mim e pelo meu tio que “aquela” era a melhor decisão. Ela não podia mais sofrer, não era justo, ela não merecia!

Sou veterinária, sou proprietária e além de tudo gostava dela como se fosse minha. Desliguei o telefone e estava sozinha, meu tio novamente não conseguiu se despedir. Estava eu, a decisão e parte da Milk. Juro que perguntei a ela: “o que você quer de mim?”; “o que eu faço agora?”. Ela gemia, estava com dor, devia estar cansada de tanta dor. E então eu rezei, a coloquei em minha mesa com a caminha e foi feita a primeira medicação. O choro foi cessando e na segunda medicação ela dormiu, já não sofria mais e de certa forma fiquei um pouco mais calma. Com a terceira medicação seu coração já não batia e com o estetoscópio fui acompanhado os últimos batimentos de uma vida cheia de alegria.

Hoje ela não sofre mais, e pela minha crença a Milk existe em algum “outro lugar” muito mais feliz. Eu ainda sofro das lembranças e por ter compartilhado todo o sofrimento dos últimos dias. E foi a “boa morte”, a última coisa que pude proporcionar a ela.

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“Canto do focinho”

Criei este blog para dar dicas de saúde, compartilhar informações, lembranças e histórias sobre os pets, nossos amigos mais fiéis e considerados por muitos membros da família.  Eles representam afeto, companhia e amor incondicional. Cuidam da nossa casa e da nossa saúde. Avisam quando algo está para acontecer, nos protegem e até mesmo brigam pela gente. Um animal de companhia pode também representar força, status e posição social.  Nossos queridos amigos nos enchem de amor… Aquele amor sem fim, desmedido e gratuito.  Mas um dia eles nos deixam também, e com isso trazem à tona um sentimento profundo de tristeza, vazio e saudades.

O “Canto do focinho” é um espaço para dividir histórias sobre nossos bichos, tenham elas um final feliz – e assim compartilhamos alegria –  ou triste – e assim compartilhamos nossa tristeza e, quem sabe, passamos a entendê-la melhor.

Além de veterinária, tenho dois cães e sou apaixonada por animais. Se você, assim como eu, ama, respeita e cuida dos animais, sinta-se em casa! Mas se ainda não teve o prazer de sentir algo assim por um bichinho, espero que este “canto” te incentive a experimentar uma história de amor sem fim!

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